Convidamos o site Papo Alternativo para participar do quadro 4 Discos, eles listaram álbuns de punk rock/hardcore que marcaram a década de 90.

Formado por um casal, Vinícius Aliprandino e Letícia Moraes, o site Papo Alternativo é um blog praticamente irmão do Pacóvios. Nós nos conhecemos quando os projetos estavam dando os primeiros passos. De lá pra cá muita conversa e troca de aprendizados. A admiração mútua é reflexo da dedicação e devoção a música.

Convidamos o Papo Alternativo para listar 4 Discos, o resultado é um post incrível sobre o Punk Rock/Hardcore anos 90. Confira agora:

“Os anos 90 foram ensolarados, traumáticos, confusos e inovadores. Muitas bandas se formaram, vindas das garagens, porões, quartos apertados e quintais. Outras, surgidas no meio ou final da década de 80, conquistavam muito mais chão. Aos nascidos nos anos 80 e 90, crescendo ali, pela década de 90 mesmo, ou tendo sua adolescência a flor da pele nos anos 2000, desfrutavam dos sabores vindos dos anos anteriores, com aquela sensação de novidade.

Certa inocência que pairava no ar, pronta para bater de frente com a realidade e passar a entender o mundo através da música, ou então para alguns, ao menos (se é que podemos classificar apenas assim) curtir aqueles dias, meses e anos, embalados por essa safra.  Muita coisa boa surgiria dali e movimentaria o mundo da música e até o comportamento político e social. Então vamos logo abaixo em uma viagem por esses anos, na carona de alguns álbuns que, naquela época, ganhavam vida”.

Anti-Flag – “Die for the Government” [1996]

Álbum de estreia da banda estadunidense Anti-Flag, que não perde a oportunidade de fazer uma crítica construtiva. O “Die for the Government” representa a chegada de uma nova geração punk. O calor do protesto se encontra em cada frase dessas 17 faixas.

Um punk com arranjos bem trabalhados, mas sem perder sua essência. Algumas vezes pisa no patriotismo exagerado, como na faixa que dá nome ao álbum que crítica a guerra e tudo o que ela gera, demonstrando opinião ao dizer “I don’t need you to tell me what to say, and I don’t need you to tell me what to think” (Eu não preciso que você me diga o que dizer, e eu não preciso de você para me dizer o que pensar).

Nesse mesmo álbum ainda podemos encontrar três faixas que criticam sem receios à policia dos EUA, como na canção “Police State In The USA” que garante que a polícia naquele país é “um fascismo com uma face amigável”. Também na faixa “Fuck Police Brutality” que comenta sobre a perseguição policial contra os punks. E ainda uma crítica com um soar mais cômico à CIA na música “I’m Being Watched By The CIA”.

Enfim, Anti-Flag como banda já é um exemplo anti-quase-tudo a ser seguido. Neste álbum então eles conseguiram adquirir um respeito inestimável, com a essência que até hoje os guia. Contra guerras, poder, destruição, contra tudo aquilo que fere e em defesa do que deveria ser usado em nosso favor. Esse é “Die for the Government”, um álbum de arrasar!

Green Day – “Dookie” [1994]

Terceiro álbum da banda Green Day que trouxe à tona canções que até hoje são ouvidas e reconhecidas como “When I Come Around”, “Basket Case” e “Welcome to Paradise”. Dessas canções as duas primeiras foram para primeiro lugar na parada musical de rock moderno da Billboard.

O álbum ganhou Grammy na categoria “Melhor Álbum de Música Alternativa”, apesar de trazer algumas músicas polêmicas como “Longview”. Mas não são esses fatores premiados que fazem com que o álbum mereça ser homenageado de alguma forma, mas sim seus tons, melodias, letras e arranjos.

Apesar de uma pegada levemente pop, o punk ainda se encontra presente. Quando você acha que a música vai perder sua ênfase, ela ressurge e ganha vida. O álbum também foi bastante criticado, alguns diziam que a banda havia “se vendido”, porém eles afirmaram que apenas estavam sendo eles mesmos, e que cada álbum soava com o que vivenciavam no momento de criação.

Embora menos pesado, ninguém pode negar que se tratou de um trabalho de aspecto chamativo, que não deixou de ser punk em sua pureza e formação e que é incomparável com qualquer outro trabalho da época. Muitos álbuns tentaram, mas poucos foram tão memoráveis como esse.

The Offspring – “Americana” [1998]

Aos ouvidos de muitos, o Offspring pode ter passado longe de ser considerado um clássico, ou até mesmo Punk ao pé da letra. Taxados como vendidos, filhinhos de papai, a banda esteve nos dedos apontados de parte do público do Punk Rock. Entretanto, apesar da choradeira contrária, essa é uma banda que merece ser lembrada como quem contribuiu, não apenas com a sobrevivência do Punk, mas também com sua expansão nos anos 90.

Foi com o Smash que a banda estourou, mas o Americana é um álbum diferenciado. Lembro de conhecer a banda através deste disco – nem era original e o CD também trazia as músicas do Conspiracy of One.

Lançado em novembro de 1998, Americana trazia 13 faixas (uma introdução e mais doze músicas).  A segunda canção “Have You Ever”, com refrões emocionantes, seguida de “Staring at The Sun”, a ousada Pretty Fly (For White Guy), “The Kids Aren´t Alright” e sua letra séria e nada otimista com relação ao futuro; a versão da brasileira “Feelings”; “She´s Got Issues”, que ganhou clipe com participação de Zooey Deschanel; a divertida “Walla Walla”; a mórbida “The End of The Line”, a inconsequente “No Brakes”; a plágio (“homenagem” aos The Beatles) “Why Dont You Get a Job”; a revoltada “Americana” e a viajada “Pay The Man”.

No resultado final, quase todas as canções viraram hits da banda. Tanto que no show em que passaram pelo Rock in Rio 2017, a banda tocou quase que com exclusividade canções de “Conspiracy of One” e “Americana” em meio a tirolesas contínuas e sinalizadores no meio da plateia insana.

A cada álbum, a banda mantém a essência e a energia do Punk Rock californiano, mas “Americana” é sem dúvida um grande marco na história do Offspring e na formação musical de uma multidão.

Dead Fish – “Sonho Médio” [1999]

Final da década de 90, “tempos de crise e confusão”. O ano é 1999. O Dead Fish vinha desde seu início em 1991 desbravando cada vez mais o território. Em uma época em que a cena precisava de muito mais empenho para acontecer, os capixabas não poupavam esforços, empenho e velocidade. Tudo isso de uma maneira melódica e com qualidade.

“Sonho Médio” é lançado – aqui se divide a história do Hardcore Nacional. Após esse disco, o Dead Fish dava um salto para a galera, de modo que cairiam ainda mais no gosto e passariam a influenciar músicos, bandas, ideias, opiniões e comportamento.

“Escapando”, “Sobre a Violência”, a sem esperança e esperançosa “Modificar”,  a crítica “Paz “Verde”, “Mulheres Negras” convocando para a luta. Em seguida é a vez dela – irônica, crítica, rápida, emocionante e dona do nome álbum – “Sonho Médio”.  “Por Paz” lutando contra os egos e dando a letra para não desistir a cada dificuldade; “Fragmento”;  a “Hoje” de ontem que é “Hoje” de hoje, sempre atual; “Cidadão Padrão”; “Sua Bandeira”; “Canção Para Amigos”; “Damn Lie” e “Lost Soul”.

Nos anos 90 o Dead Fish e, com anos de experiência, a banda além de ainda ter velocidade, crítica e a vontade daquela década, acrescentou maturidade, experiência, estrada, bagagem, público e um enorme respeito, não apenas da cena Hardcore, mas no Rock nacional. É uma das grandes referências, quando se trata de Hardcore e também faz parte formação musical, referência de música crítica e politizada, incentivo pra enfrentar, entender e buscar uma mudança do mundo ao redor, não apenas minha, mas também de muita, muita gente mesmo!