Convidamos o quarteto a frente do selo e gravadora Pessoa que Voa, cada integrante escolheu um disco e falou sobre. Confira.

O 4 Discos é um dos quadros mais legais do Pacóvios, criamos ele para mostrar como muitos discos se relacionavam, isso nas mais diversas situações possíveis e imaginárias. Mesmo assim, fizemos poucas edições dele, o que é uma pena. Pensando que tudo na vida é reciclável, o conteúdo volta e agora vamos abrir espaço para que músicos, bandas, selos, outros jornalistas etc falem.

Para começar essa nova fase com pé direito convidamos um quarteto fantástico, os meninos do selo Pessoa que Voa selecionaram 4 discos que influenciaram suas carreiras musicais e ainda ditam grande importância nas rotinas e trabalho com o selo.

O PQV é também uma gravadora, o projeto nasceu no começo de 2017, justamente com a missão de gravar, lançar e divulgar novos artistas. Desde então já divulgaram trabalhos de: Marchioretto, Vinicius Mendes, Quasar, calvin voichicoski e eliminadorzinho. O quarteto a quem me referi no começo é: Vinicius Mendes, Lucas Silva (LVCASU), Matheus Antonio (Theuzitz) e Guilherme França (Quasar).

Confira 4 Discos por Pessoa Que Voa:

Theuzitz: Cassiano – “Apresentamos Nosso Cassiano” [1973]

Falar profundamente desse disco é uma tarefa muito complexa e a cada audição dele eu encontro novos detalhes e tenho outras percepções. Mas algumas coisas devem ser ditas: Cassiano é o grande soulman brasileiro, o mais completo em todos os termos, e o “Apresentamos…” é um disco dos quatro álbuns irretocáveis que ele tem (não incluo o “Cedo ou Tarde”, que não tem tanto a mão dele, e sim o “Cada um na Sua” com os Diagonais, sua antiga banda).

Esse disco consegue ser hippie, ostensivo, progressivo e pop ao mesmo tempo, com letras surreais sobre sexo e comunismo (“Chuva de Cristal”, por exemplo) numa época de afirmação do movimento black no Brasil. Acho que por antecipar tantas tendências e não fazer uma música brasileira tão óbvia, as pessoas não conseguiram e não conseguem enquadrar ele no lugar comum dos “malditos” ou dos “grandes compositores”.

Vinicius Mendes: Joanna Newsom – “Have One On Me” [2010]

“Have One On Me” é intimidador à primeira vista. Um disco que ultrapassa duas horas hoje em dia praticamente exige que você separe um tempo na agenda pra ouvir. Mas, aí se torna um evento, o que foi feito pra ser. “Have One On Me” é uma surpresa vindo depois de “Ys” (2006), que tinha toda aquela pompa e os arranjos de Van Dyke Parks permeando cada frase.

Esperava algo parecido, até maior em escala, mas “Have One On Me” é mais contido: os arranjos de cordas e bateria são breves e sutis, complementando cada canção, em vez de afoga-las em grandiosidade.

As composições da Joanna Newsom parecem romances às vezes, usando diversas referências históricas e literárias (como na faixa título ou “Go Long”), entrelaçando umas às outras num grande universo, só dela. O estilo dela de escrever vem me influenciando muito ultimamente, especialmente em “Corpo Incorrupto”.

LVCASU: Frank Ocean – “Blonde” [2016]

Pouco mais de um ano se passou desde o lançamento de “Blonde”, mas eu já posso dizer que foi o disco que mais influenciou minha musicalidade em diferentes níveis. O dinamismo entre os temas, os timbres, as letras, a escolha de cada elemento presente no álbum, tudo parece minuciosamente pensado pra levar a nostalgia ao ouvinte por uma via quase espiritual.

O álbum é carregado por vozes muito bem trabalhadas com reverbs, autotunes e pitch shifters acompanhados de instrumentais sonhadores e minimalistas. Frank aborda a modernidade em uma diversidade incrível de temas entre eles sexo, relacionamentos antigos, drogas e questões de sexualidade e raça, seja com versos poéticos (Seigfried) ou que soam quase improvisados (Futura Free).

Outro ponto que me inspira muito nesse disco é o respiro de 4 anos entre ele e o “Channel ORANGE”, num tempo em que os lançamentos são cada vez mais efêmeros, ficar mais de dois anos sem lançamentos é um luxo que poucos artistas se dão e é algo que faz muito bem.

Guilherme França (Quasar): Fábio de Carvalho – “Tudo em Vão” [2015]

Quis escapar do espectro do rolê e talvez trazer um disco novo pra quem está lendo, mas a vontade de escrever sobre algo que se relaciona com a Pessoa que Voa foi maior. Lançado em junho de 2015 pela Geração Perdida de Minas Gerais, “Tudo em Vão” é um trabalho que mostra Fábio encarando com urgência o final da juventude e o começo da vida adulta, e sinto que essa urgência também aparece nos discos lançados pela PQV (até porque todos nós temos a mesma idade e passamos por situações parecidas).

Um aspecto interessante é ver como as 10 faixas do álbum são variadas na sonoridade, mas dialogam muito bem no final das contas, assim como os floreios da juventude.