Marianna Perna lança com exclusividade para o Pacóvios, seu projeto inédito “A Cerimônia de Todas as Vozes” com poema-single intenso

Concebido pela poeta e pesquisadora Marianna Perna o livro-disco “A Cerimônia de Todas as Vozes”, nasce a partir de muita pesquisa sobre a palavra poética em suas diversas faces em diálogo com a música. Com previsão de estréia para o inicio de 2018.

Entre os temas, está O Sagrado Feminino e seu poder sobre a essência da mulher, e para dar uma ideia do que vem por aí ficamos com o videoclipe teaser de Abertura – confira aqui – que é a evocação da vozes das escritoras mulheres, que guiam a os passos poéticos de Marianna. 

Todos os poemas são de autoria de Marianna Perna, assim como o direcionamento musical, a construção artística e das vozes de diversos músicos envolvidos no projeto, entre eles estão Helio Flanders (Vanguart) e Tatá Aeroplano.

Conversamos um pouco com a Marianna sobre o projeto “A Cerimônia de Todas as Vozes”, confira abaixo:

Pacóvios: Marianna, o projeto tem um conceito bem diferente e novo, conta um pouquinho de como aconteceu a concepção de “A Cerimônia de Todas as Vozes”.

Marianna Perna: Este projeto nasceu de uma maneira bem espontânea e fluida, talvez como resultado natural de um processo que eu vinha acumulando em mim ao longo do tempo, o de pesquisa da poesia em várias formas – o poder da voz para trazer a palavra poética, e para além da própria palavra, com as emissões, gritos, etc. O formato é algo que venho há algum tempo querendo realizar – gravar um disco de poesia recitada, mas a forma que ele veio não foi pré-planejada, foi uma jornada única – para todos e para mim também! Quando vi, estava sendo levada e a coisa estava nascendo.

Acho que tudo estava ressoando muito em mim já há algum tempo então eu fui intuitivamente sendo levada a escolher o repertório de poemas e qual a sonoridade que cada poema parecia pedir. Não foi nada racional nesse sentido, ainda que tenha sido organizado depois, o que eu acho que garantiu a fluidez também. A partir do momento em que tínhamos o poema e suas camadas de voz gravados, a sonoridade se construiu de maneira muito espontânea e original com os meninos, a partir de uma diretriz inicial dada pela minha intuição – ou sensibilidade artística.

E a ideia do livro em junção com o disco veio a partir do contato com o livro-disco do Felipe Antunes (compositor do Vitrola Sintética e que lançou em 2016 seu primeiro solo), o Lâmina, que é um disco belíssimo de canções. Quando eu o vi/ouvi, entendi que era por ali que o meu se faria – nessa junção de livro e CD. Foi uma super inspiração e uma confirmação também.

Pacóvios: Quais são as autoras e/ou autores que te inspiraram nesse projeto?

Marianna Perna: Acho que uma porrada de gente! Tudo o que eu já ouvi e li até agora de poesia de alguma forma está presente, principalmente de poesia feita por mulheres. Eu não procurei seguir nenhuma linha de trabalho, apesar de um marco muito forte ser o disco do Jim Morrison, o ” An American Prayer”, de 1978, que trabalha essa junção de poemas e música feita pelo Doors a partir de gravações do Jim de 1970. Ainda assim a sonoridade e a concepção são bem diferentes, são outros tempos. Mas o Jim Morrison poeta com certeza é uma referência que sempre paira, juntamente com a Patti Smith. Pra mim são mestres dessa arte da poesia e da música.

Mas, como de formação sou historiadora e não consigo deixar de lado um olhar crítico em relação ao que vivemos, meu passo além foi o de juntar a história da mulher mas através da arte. Para isto eu venho me debruçando muito em mulheres poetas nos último anos, compreendendo a minha história como a delas, e isso me ajudou demais a entender o mundo – passado e presente – e a me entender como mulher atuante neste mundo.

Assim eu quis que o disco fosse uma jornada poética em direção a todas essas vozes femininas que me compõem – e que compõem a todos e todas nós! – como um entendimento de o que nos atravessa hoje é um resultado de tudo o que veio antes – para o bem e para o mal! Então tem muito das escritoras que eu leio, que são muitas – na faixa de Abertura tem o nome de algumas delas, mas são muitas mesmas. Dou um destaque à Hilda Hilst aqui porque nós fizemos uma diária na Casa do Sol para gravar um dos vídeos, e para mim foi uma honra tremenda estar na casa em que ela viveu por tanto tempo para registrar algo que ela que me mostrou, que eu aprendi com ela: a poesia, a voz feminina profunda, a busca por autoconhecimento, e tantas outras coisas. Foi realmente bem marcante pra mim.

Pacóvios: Além do tema O Sagrado Feminino e seu poder sobre a essência feminina, quais temas mais podemos esperar?

Marianna Perna: Essa questão do sagrado feminino eu chamo assim mas para mim é também tão além disso! Acho que parte sim desta ideia de um contato interior com uma energia maior que é selvagem e a fonte da vida, mas é muito presente em todo o disco – que eu chamo de uma jornada, além de uma Cerimônia – uma busca inevitável por se conhecer, se entender e reconhecer dentro deste mundo, sabendo a história de dor dos nossos antepassados – todos e todas escravizadas ou massacradas pelo sistema, de tantas formas, e como isto permanece como sendo o que nos compõe.

Vejo a obra como um grito para se expurgar esta dor, para se renascer; então tem muito dessa ânsia pela liberdade, pelo amor – na sua forma mais plena, não um amor romântico, talvez em alguns momentos partindo dele, mas como reflexo de uma busca muito maior, que é a de se reconhecer, de entender o que é este amor do qual somos feito. E pra mim a Poesia é a mestra que leva a isto; a própria poesia como tema, ou a busca por esse olhar e estado poético, também é algo forte e que norteia, inclusive a sonoridade.

Pacóvios: Alguns músicos, como Helio Flanders e Tatá Aeroplano, estão envolvidos no projeto, como se deu a incorporação dos músicos? Foi algo que fluiu de uma forma natural?

Marianna Perna: Desde o começo eu queria chamar alguns músicos que eu admiro e com os quais tenho amizade por conta da intensa troca poética, e eu tive sorte de eles toparem o convite! O Tatá Aeroplano fez o prefácio já quando o disco estava pronto e sinto que as palavras dele conduzem toda a sensibilidade do ouvinte-leitor de uma maneira muito bonita.

Os outros envolvidos – Carlos Gadelha, Felipe Antunes, Helio Flanders e João Leão – toparam pela nossa amizade e por acreditarem no projeto, e o processo foi todo muito fluido. A proposta era simples: tinha uma direção musical que eu dava, depois de um período de sentir qual seria a sonoridade e os instrumentos pra cada poema (onde alguns poemas ao início e ao final focam na voz e em alguns instrumentos que eu toquei).
Depois de eles receberem essas referências de sonoridade a gente se encontrava pra gravar, e sentindo o poema a partir das referências e do clima que eu estava propondo, eles captavam e gravamos.
E eu ressaltei também o quanto essa direção inicial era apenas pra nortear, que eu queria mesmo uma criação que fosse coletiva, que partisse deles, e isso rolou! Também devo creditar essa facilidade à competência musical de todos eles e, mais ainda, à sensibilidade e receptividade para com a poesia.
Foi um encontro – um cruzamento musical – muito feliz e acertado!

Pacóvios: Marianna nós estamos bem ansiosos para ver esse trabalho completo! Aproveitamos para pedir que deixe uma mensagem para a galera que acompanha o Pacóvios e aos seus fãs.

Marianna Perna:  Não vejo a hora de ter este livro-disco inteiro para ser experienciado, é uma proposta de imersão poética e que é muito real para mim, não é apenas uma obra artística, mas algo que eu vivo e no qual acredito muito.

Está sendo muito bonito ver isso surgindo aos poucos, em todas as suas camadas. Já é uma jornada de mais de um ano; após as gravações eu me dediquei às filmagens e agora à preparação corporal poética – e agora ele começa a chegar às pessoas. A ideia desse projeto ao vivo é de ser uma experiência da poesia de maneira híbrida – cênica e com música e projeções ao vivo – para que se possa ter o gosto vivo da cerimônia da palavra e a força que a poesia pode trazer à nossa vida, como o olhar poético pode transformar o mundo dentro e ao nosso redor.
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