Hoje na coluna de Daniel Ferraz, editor do Podcast Crocante///, o questionamento de como o mainstream pode, ou não, alterar os rumos de uma boa banda.

Por: Daniel Ferraz.

Nesse texto eu gostaria de que músicos, ou fanáticos por música se envolvessem para discutir, se os artistas ainda vivem de forma desvairada e mandam o sistema à merda ou a maioria já tá tão enfiada em um mercado, que todos os artistas novos já são subproduto de uma indústria que já se integrou de movimentos que começaram diferentes e chocantes para se tornar um estilo consumível.

Eu sei que esse papo que tô escrevendo é a coisa mais clichê de banda / artistas que se acham revoltados e tentam imaginar que de alguma forma não estão inseridos num meio mercadológico. Mas estão.

Na minha opinião, não há problema algum em se vender, na real, é preciso se vender pra poder viver do que você realmente curta fazer. Obviamente que em muitos casos o artista tem que ceder de algumas pirações pra, digamos assim, simplificar o produto. O mais importante é saber se tornar um produto que não afete a maneira como você concebeu aquele trabalho artístico. Esse processo tem que ser feito de uma maneira respeitosa.

Mas o problema é que nessa dinâmica de mercado, será que existem artistas que não se tornaram caricaturas deles mesmo? Será que sua atitude e imagem não se tornam estagnadas pra conseguir vender mais em prol da sua identidade visual? Já ouvi várias vezes isso de músicos: “Aaaah, esse estilo de música não cabe na minha banda, vou ter que fazer outro projeto pra conseguir lançar essa música que compus”. Eu entendo que trabalhar com outras pessoas demanda que você tenha que ter alguns limites, pois às vezes o outro pode achar ruim a mudança. Mas porra, os próprios artistas se censuram sem ao menos tentar experimentar. É claro que acabo generalizando bastante, mas espero que tenham entendido meu ponto.

Vamos pegar alguns exemplos que estão no próprio mainstream. Tipo Mac DeMarco, carinha doido que parece que passa o dia num trailer nos arredores de Nova Iorque bebendo cerveja e fumando “Viceroys”. Ele até pode ser assim, mas uma hora, pessoas que você não conhece acabam criando uma imagem que em certa maneira, o simplifica, e isso pode fazer com que ele se sinta como uma caricatura.

Ou aqui no Brasil temos o Johnny Hooker que faz performances com figurinos extravagantes e que muitas vezes deixam o cantor semi-nu no palco. Ele bebe muito na fonte de artistas como David Bowie e Ney Matogrosso que viviam em épocas em que usar um figurino extravagante era considerada uma ofensa gravíssima. Um deles vivendo em uma Inglaterra completamente conservadora e o outro chocando a Ditadura Militar Brasileira. Há uma ótima intenção do Johnny Hooker, mas será que essa atitude é subversiva ou a indústria engoliu a atitude transformando-o em mero produto?

Outra coisa que me brocha muito é quando bandas que estavam em hiato e se reúnem pra tocar em turnês ocasionais feitas para ganhar uma graninha. O Strokes é um grande exemplo disso, de que eles claramente não são mais jovens, estão cansados de tocar as mesmas músicas e fazem um show que parece somente uma replicação daquilo que já foi um dia. Se não tá afim não simule uma atitude revoltada que dá pra perceber, irmãozinho, dá pra perceber.

E por fim, acredito que essa atitude ainda exista na música, mas há certa dificuldade pra achar, pois ela não está na imagem falsa feita a partir de um ideal de artista que nem o Tiago Iorc ou a Anitta. A atitude está nas pessoas que acreditam em mercados alternativos. Pessoas que amem música e acreditam no cenário independente pelo amor que sentem por aquilo. Não desmereço ninguém que faça sucesso para milhões, mas será que pra isso você não precise deixar de ser um ser humano e se tornar somente uma imagem de um ideal?

Beijão e é nóis

Pacóvios: Cultura independente de tudo.