André Neto é um poeta premiado, cozinheiro amador e vocalista da banda Lítera. O grupo nasceu há 10 anos, em 2009 o primeiro lançamento, o disco “Um Pouco de Cada Dia”, foi premiado como o melhor lançamento do ano pelo ClicRBS.

Sete anos se passaram e no primeiro semestre de 2016 a Lítera lançou um trabalho conceitual nomeado “Caso Real”, o disco trata sobre o amor proibido vivido pelo imperador Dom Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos.

Conversamos com o André Neto sobre o disco e muito mais, leia:

Lítera

Lítera

Pacóvios – O disco “Caso Real”, fala sobre o romance entre Dom Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Paulo Rezzutti foi o escritor que revelou diversas cartas trocadas pelos amantes. Como você descobriu esse material e resolveu musicar a história?

André: Um dia eu fui tomar café em um lugar chamado Domitila, onde os pratos do cardápio eram todos com nomes de personagens da época do Império e, entre as páginas, colocaram cartas trocadas entre a Domitila e o Dom Pedro I. Quando li a primeira já fiquei fascinado pela história e fui pesquisar mais coisas. Nessas pesquisas eu logo encontrei o Livro “Titilia e Demonão” do escritor Paulo Rezzutti, que me inspirou pra compor o single “Domitila”. Conversando com a banda, vimos que uma música só não trazia todas as nuances desse romance, então surgiram o EP1 – O Imperador e o EP2 – A Marquesa, que com mais quatro músicas novas completaram o disco Caso Real, que lançamos em novembro de 2015.

Pacóvios – Em sua opinião, qual a importância de trazer essas histórias particulares, de pessoas que foram tão importantes para o nosso país, para uma linguagem mais atual, que é o rock?

André: A importância é justamente a de utilizar uma história do século XIX para questionar as normativas impostas nos relacionamentos de hoje. Esse tema nos permite abordar vários assuntos que a gente quer questionar na sociedade, sobre preconceitos de gênero, classe, credo e cor no amor. Queremos que as pessoas conheçam essa história que temos aqui no Brasil (não precisa ir até a Europa pra ouvir uma), que as pessoas saibam que aqui temos um caso real em todos os sentidos (verdadeiro e da realeza), temos uma mulher forte. A Domitila é considerada uma das primeiras feministas do Brasil, viveu até quase os 80 anos de idade promovendo saraus, patrocinando eventos culturais, ajudando estudantes, quebrando estigmas colocados sobre as mulheres e questionando o machismo da sua época. Foi amante do Dom Pedro I por 7 anos só, o que no total de tempo de vida dela representa muito pouco. Então, nessa história, o mais importante de tudo pra mim é trazer a persona da Domitila à público, para as pessoas desconstruírem a imagem que é passada sobre ela e saberem que ela foi muito mais que amante.

Pacóvios – O disco tem uma regravação, a canção “Amantes”, composta por José Augusto, a faixa ganhou um videoclipe gravado durante uma apresentação ao vivo. Como foi regravar esse sucesso e encaixá-lo na história de Titília e Demonão?

André: Eu costumo dizer que foi a música que nos encontrou, por que ela é uma canção pronta sobre o tema. Se encaixou muito bem no que a gente queria, tratava de um tema pesado mas de uma forma muito leve. É uma música que pode estar tocando tanto num clima de fim de “inferninho” do centro de Porto Alegre de madrugada como num bloco de carnaval às três da tarde em Salvador. E o disco tem essa proposta também, de tratar com leveza temas pesados. As letras falam de coisas pesada, têm palavrão, mas a sonoridade é aberta, popular.

Pacóvios – E por falar em José Augusto, ele é reconhecido por muita gente como um artista brega, regravando ou compondo músicas cujo tema principal é o amor, você teve medo se ser taxado dessa forma?

André: Nem um pouco. A gente ama musica brega. O amor é brega. Nós temos uma banda romântica, logo somos bregas.

Pacóvios – Vocês estiveram aqui em São Paulo para uma tour acústica, tocaram até no cemitério da Consolação ao lado do tumulo de Domitila, como foi esse momento?

André: Nós fomos a primeira banda de rock a tocar em um cemitério no Brasil. Além de ser inédito, foi muito especial. A gente sabia que não era um show comum. Cemitérios são locais de muito respeito, mas também de lembrança, de saudade, e a arte trata justamente disso. Era um lugar que a gente tinha que ter muito respeito (como todos os palcos), então foi incrível mostrar nossa arte num espaço assim, ainda mais ao lado do túmulo da nossa musa. Foi uma serenata que fizemos pra ela 😉

Pacóvios – Podemos esperar mais shows da Lítera por aqui?

André: Sim. A partir do fim do mês de setembro. Agora eu estou participando de um reality show, o ‘Batalha dos Cozinheiros’, que passa toda terça-feira às 22h30 na Record e toda sexta-feira às 21h40 na Discovery Home and Health. As gravações estão marcadas até setembro, então se tudo der certo e eu for até a final (torçam por mim!), vamos retomar a turnê quando o programa acabar, voltar pra São Paulo e ir pra outros lugares do Brasil que ainda não fomos.

Enquanto a Lítera não faz um showzinho ai na sua cidade vai ouvindo o disco “Caso Real”: