Daniel Tessler e Atlas Bartholomeu falam sobre a nova fase que a banda Tess iniciará dia 11 de novembro, com o lançamento de seu segundo disco.

Em meados de 2013 conheci a banda Tess, na época eles brindavam com uma bela taça de vinho, acompanhados por generosas fatias de carne assada o lançamento de seu primeiro disco, o registro homônimo foi bem recebido, mas de lá pra cá muito tempo passou e muita coisa mudou na vida e rotina do grupo.

Com 4 faixas produzidas por Edu K a Tess lançou em 2015 o EP “Multicolor Movietone”, o álbum já esboçava um rascunho dos efeitos do tempo nas composições e criações do bandleader Daniel Tessler, “Poder Cantar”, faixa que abre o registro, é uma mistura de influencias que culmina no maior estilo pop versando sobre as mudanças que vivemos em nossas rotinas.

Como se fosse uma sina, dois anos depois a Tess volta a dar noticias e aparece em nosso radar com a faixa “Não Quero Mais me Desculpar”, com olhos apenas para o presente e futuro, o presságio de “Atlas e o Pêndulo na Verdade Sobre o Não Dito”, disco que sairá pelo Selo180 e está prometido para o dia 11 de novembro.

Conversamos com Daniel Tessler e seu alter ego Atlas Bartholomeu sobre o disco que está por vir. Cuidado, esta entrevista pode conter spoiler:

Pacóvios – Assisti ao teaser do seu segundo disco, parece uma mistura da “Marchinha Psicótica de Dr. Suep” com Laranja Mecânica. Essas são também influencias nas músicas do disco?

Atlas Bartholomeu: Certamente o Flávio é uma referência dentro do rock, desde os Cascavelletes até hoje… Acredito que tu se refira ao figurino do Atlas Bartholomeu, que é o personagem da jornada que o disco mostra. Musicalmente sim, são referencias, tanto o Flávio quanto Stanley Kubrick, pois a música como conhecemos hoje veio daquilo que foi feito pelo Beethoven, por exemplo. Dentro do movimento mod temos uma referência muito grande da época vitoriana, etc, e o Flávio soube usar isso muito bem. Nesse sentido, sim, foram referências e influências.

Pacóvios – Pode comentar também sobre como foi atuar para este vídeo?

Daniel Tessler: Atuar no teaser foi muito legal, pois ali existia o olhar do Cisco Vasques, grande amigo e gênio da imagem e do som. O olhar que ele teve sobre o Atlas Bartholomeu. Eu, honestamente, não lembro de ter feito aquelas coisas que estão no vídeo. Não lembro de ter tirado as calças, não lembro de ter pulado na cama. Quando vi o resultado fiquei surpreso! Aquele era o Atlas, e o Cisco conversou com o Atlas, não comigo.. Como foi? Foi uma loucura..

Pacóvios – E toda essa loucura também estará presente em“Atlas e o Pêndulo na Verdade Sobre o Não Dito”, seu novo disco?

Daniel Tessler: Sim, Atlas e o Pêndulo na Verdade Sobre o Não Dito não é um disco de músicas, mas sim de uma idéia. A idéia de RE-conhecimento de si. Tudo se passa dentro da cabeça do Atlas Bartholomeu, é uma reflexão. Todas as músicas são diálogos dele olhando para o espelho. É claro que o Atlas sou eu, mas ele é meu alter ego. Não é loucura necessariamente, mas sim aquela raiz daquilo que sou, sem máscaras, sem julgamentos. Aceitação absoluta de si. O disco fala sobre isso, com o olhar do Atlas sobre ele mesmo, ou meu sobre mim mesmo, mas o fato é que todos somos o Atlas, todos temos isso, todos usamos máscaras para esconder o que realmente somos dos outros. Todos escondemos coisas de nós mesmos.

Pacóvios – Há pouco tempo você lançou o single “Não Quero Mais Me Desculpar”, a faixa entra pro disco ou foi só um momento?

Daniel Tessler: Essa música foi composta no mesmo momento que eu escrevi o disco. Embora o tema seja pertinente com o disco, não é uma música que está dentro do álbum. Ela é um soco que o Atlas deu em mim antes de a embarcação dele chegar aqui. Ele avisou “Não quero mais me desculpar, não quero mais olhar pra trás pra ver quem se foi. Não quero mais fugir de mim, já basta tanta gente olhando, julgando é o fim! Eu sinto, mas não vou ficar, eu quero ir pra outro lugar onde sonhar não faz mal. E muito mais que só sonhar, eu preciso realizar cada degrau.” Isso é o Atlas falando pra mim, antes de ele virar para o espelho e falar com ele mesmo. Quando ele vira pro espelho e se encara, ele canta o disco.

Pacóvios – E, fora o Atlas, quem mais participa das gravações do álbum?

Daniel: Esse disco é bem diferente, tem muitos arranjos que, acredito, foram as melhores coisas que fiz nos últimos anos. Nesse disco eu contei com o Gabriel Guedes, ele me ajudou a arranjar e a produzir o disco. Gravou guitarras, um baixo e uma percussão. Além dele, contei com o Tomás Oliveira, baixista dos Mustache e Os Apaches. O disco foi gravado no estúdio dele, Gerência, e ele gravou baixos e teclas, todas. Se não me engano ele gravou uma percussão também. Na bateria teve o Rafael Rosa, baita baterista e amigo, e além dele o Marcus Mota, meu irmão, que gravou a bateria do single “Não Quero Mais Me Desculpar” e um overdub da bateria na primeira música do disco. Nos sopros eu tive a honra de trabalhar com grandes amigos, Alexandre Birck (baterista da Graforréia Xilarmônica) que gravou os clarinetes, Rodrigo Siervo gravou o oboé, Gabriel Ugamba gravou trompete e levou o Bruno pra fechar o naipe com o trombone. O saxofone foi gravado pelo Ronaldo Pereira, baita saxofonista, que fez no primeiro take um dos solos mais emocionantes que eu já escutei. As cordas foi o baita profissional Rodrigo Alquatti, que é violoncelista da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre).

Pacóvios – Todas as composições são suas?

Daniel Tessler: Sim, todas as músicas são minhas. Minhas e do Atlas. (juro, esse cara tem vida própria).

Foto: Ricardo Lage.

Pacóvios – O novo disco se diferencia do primeiro? Como?

Daniel Tessler: Sim, embora os dois discos falem de amor, mas são amores diferentes. Existe um nível de complexidade e profundidade no Atlas e o Pêndulo na Verdade Sobre o Não Dito que o primeiro disco não tem. O primeiro disco foi a virada de página quando Os Efervescentes pararam as atividades. Na minha opinião foi libertador. O disco do Atlas é mais profundo, questionador, complexo, com um turbilhão de sentimentos e perguntas que são difíceis de responder, ou até não tem resposta. Não usei elementos eletrônicos, é basicamente um disco acústico, com referencias muito fortes no século XVII e XVIII, é um disco olho no olho, gravado quase todo no take 1, totalmente orgânico. É um disco humano, de verdade, sem máscaras.

Pacóvios – E sobre a parceria com o selo180, o que da pra adiantar?

Daniel Tessler: O selo 180 é de um grande amigo, o Rodrigo Andrade (Garras), e me sinto muito a vontade com ele. Quando ele escutou o disco, me disse que ficou chocado, que fazia questão de lançar pelo 180, que queria ter aquele material no catálogo de qualquer jeito. Eu costumo acreditar nos meus amigos, então acreditei nele e é isso aí. Ele lançou tudo o que a Tess fez até agora, o primeiro disco, o EP “Multicolor Movietone” de 2015, o single do começo desse ano e agora esse disco que vai sair dia 11/11. Gosto do selo180. O próximo disco não vai sair por esse selo, mas já tenho em vista um outro material pra lançar com ele depois desse disco. Essa parceria não vai terminar nunca, mesmo que uma coisa ou outra saia por outros selos eventualmente..

Pacóvios – Chega de spoiler, né? Nossa última pergunta é na verdade um espaço em branco para deixar uma mensagem aos nossos leitora, seja ela qual for, fale agora.

Atlas Bartholomeu: O outro não existe. É sempre um reflexo daquilo que somos. Estamos sempre lidando com um espelho. A gente deveria escutar mais a nossa criança interior e aceitar aquilo que somos, para não julgar errado todos os que estão na nossa volta, acusando assim a nós mesmos daquilo que dizemos ser do outro. É sempre um espelho.